Essa noite, eu matei o amor. Meus olhos vermelhos pulsaram doze badaladas. O ar girou ao contrário nos meus pulmões.
Todos, os outros olhos, foram-se embora aos pares, um a um. Deixei flores nas encruzilhadas com o meu nome, mas guardei duas pétalas de cada para mim. 
Joguei todas as minhas roupas no esgoto e quebrei os espelhos com os dentes. A noite não é tão escura do lado de fora. 
Todos, os outros olhos, foram-se embora aos pares, um a um. Viraram a esquina, desceram a rua, bateram nas portas e foram-se embora.
Os belos óculos dourados não foram canalhas. Afinal, todos, os outros corações, ainda estavam intactos. O amor é cego, diriam.
Mas, essa noite, eu matei o amor. E ninguém conseguiu ver. Só eu sei que os olhos partiram, o coração continua vivo, mas o amor morreu.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016 às 19:32 , 0 Comments

Sexta-feira à noite.

Desapontar-se consigo mesmo é a pior das maldades que alguém pode fazer a si. E, no entanto, é inevitável. Gostaria de ser mais generoso com minhas fraquezas, mas elas levam de mim o que mais necessito. As chances escorrem-me por entre os dedos, mas o medo de fechá-los, muitas vezes, me faz soltar os braços, para ajudar a sorte a ir embora mais rápido. Dê-me a maior chance de todas, e eu não conseguirei aproveitá-la. Temo já tê-la recebido e, sem perceber, no reflexo de não olhar para o que jogo pela janela, deixei-a passar. Provavelmente sacrifiquei-a ao Deus que o Medo se tornou dentro do templo de que fiz  minha alma covarde. Rezo para ele, todos os dias, a oração final, a única coisa que me cabe, pois esta é a maior de todas as tristezas: pedir desculpas a mim mesmo, e não poder me perdoar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015 às 21:00 , 0 Comments

Escárnio

Às vezes, me pego sendo cruel comigo mesmo. Outras, abraço-me com toda a fraternidade que consigo reunir. Não consegui balizar os momentos de rasgar a facadas os meus pontos fracos e os de costurá-los e remediá-los com mãos sensíveis, cheias de solidariedade. E nessa dança bizarra, me torno uma colcha de retalhos. Todos os dias tenho de me re-conhecer. Apresento-me e conforme a onda do dia, faço amizade ou torno-me inimigo mortal. Nesses arroubos, as vezes tomo decisões estranhas. Há pouco tempo, virei as costas para vários daqueles que eu achava serem meus amigos. Sinto que sobraram poucos. Talvez eu tenha tentado demais, exacerbado o vínculo tênue que havia entre nós, ou mesmo esperado demais. Porém, no fim, sinto que dei mais do que recebi. Será que é só impressão minha? Se analisarem de outro ponto de vista, não terei eu sido eu um amigo relapso também? Quem sabe... Pode ser o meu vício em solidão deixando a minha boca seca e eu, como bom viciado, bebo sem pensar duas vezes a chicotada do vazio. Será que eu, na verdade, não procuro me decepcionar? Sim. Dessa forma eu posso voltar aqui e escrever as mesmas linhas de novo e de novo. E lamentar. E esperar. Meu círculo vicioso é bem construído e me engana repetidas vezes. Se tudo o que eu mais quero é sair dele, por que ajo como se estivesse tão confortável? Quantas vezes terei de perguntar? Sabe o que eu acho? De verdade? Eu sou orgulhoso. A verdade é que eu me amo até demais. E a cada lacerada profunda do fio do meu próprio atame, a cada membro que eu arranco e prendo de novo no lugar, a cada faca nova que eu deixo me penetrar, eu me liberto de uma corda diferente. As minhas correntes são quebradas aos poucos, dura e dolorosamente, me fazendo ricochetear de volta pro mesmo fundo do poço. Eu gosto da dor. Gosto de me sentir fraco, pequeno. Mastigar as minhas entranhas faz os meus dentes sangrarem de dor, e eu gosto. Por enquanto, sou feito de ódio.Mas uma hora elas vão acabar, as correntes. E quando isso acontecer, muita gente vai sofrer os mesmos cortes, os mesmos vícios e a mesma sede imensa de viver que eu senti, pois eu não darei a mão a ninguém. Explodirei e sentirei cada pedaço do meu corpo doer como um grande grito preso ressoando numa sala imensa. Não acabarei rápido. Serei de asco e gastura para os lábios e ouvidos dos meus supostos amores. Abjeto, serei o lixo em que vivem os falsos e obsoletos amigos. Posso ser covarde, mas nunca deixei de cumprir a minha parte no acordo. Sempre souberam o que eu era e até onde eu podia ir. Não tiveram a mesma delicadeza comigo. Os meus demônios serão os maiores e engolirão a todos. Quero ver todos tão mal quanto eu. O meu julgamento será a minha ruína, pois eu sou o meu próprio juiz. Paguei propina a mim mesmo para me condenar. E, poxa vida, quanta pena eu sinto de mim...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015 às 16:39 , 0 Comments

Dolores

Se amados fossemos, todos os dias, enjoariamos rápido da vida. Sentada nessa cadeira marrom sem graça, sou mais amada do que jamais fui, pois amo-me com a lembrança de ter sido amada. Sinto o amor que só a memória pode dar. De dentro para dentro, amo-me como a faca que me rasga todos os dias, impiedosamente, até transformar tudo em feios amontoados de carne que apodrece rapidamente. E gosto de me assistir decompondo. Sinto um prazer imenso em masturbar minha superfície morta com a lâmina afiada da auto-comiseração e deixo escorrer líquido o prazer de me ver acabar aos poucos sobre a massa fétida dos meus restos. Então, espremo violentamente o sumo misturado de remorso, prazer, solidão e amor que dói, mais do que qualquer outra coisa, dói. Encharco com essa mistura ácida a matéria que já era inerte, para reavivar, de novo e mais uma vez, cada milímetro de superfície dolorida que ele tocar. E o ódio de nós para conosco queima, alto, forte, firme e hediondo. O segredo do amor é ignorar o combustível e olhar só para as chamas.
Não tenho vergonha de dizer que me faço mal. É assim que convivo comigo mesma e já fiz as pazes com Deus e a vida por terem me feito assim. Aceito que esta é a minha condição e é nela que devo existir. Já procurei saídas, mas aquilo que é da ordem do ser jamais some. Pelo contrário, permanece. E no permanente da dor eu renasço todos os dias. Eu sou aquela que merece a dor e esse privilégio é só meu.
Esqueci de propósito o dia em que nasci, não quero saber. Gosto de pensar que não nasci ainda. Vivo embrionariamente a dor de me dividir milhões de vezes por segundo, existindo no supracitado privilégio de reconhecer cada corte como posse. Quantos de vocês podem dizer que são donos da própria dor? Nenhum. Não. Só eu, nesse mundo todo, sei a extensão do doer humano. Sejam sinceros, olhando para mim, vocês não se sentem melhor? Eu me sinto. Gosto de olhar no espelho e desprezar o meu reflexo. Imagino como deve ser gostoso me olhar em terceira pessoa, assim, do jeito que vocês estão fazendo. Deve ser bom...
Se perguntarem por aí, meu nome é Dolores, mas eu inventei, porque combina mais comigo que Beatriz. Nunca fui casta. Nunca fui beata. Nunca fui luz. Se pudesse escolher teria nascido puta, filha da puta e aidética. Nasci irritantemente saudável. Fui posta no mundo para ser feliz. Recusei-me terminantemente todos os dias. Tenho orgulho de dizer que sou miserável. E no decorrer dos dias, convido o pior que há no mundo para adentrar as portas de minha vida. Abro as minhas pernas para qualquer um que me jurar o não-amor eterno. Gosto do gosto de sêmen frio. Prefiro que o sangue escorra pelas minhas pernas abortado. E no dia-a-dia, ando sempre pela esqueda, que é para ter o que responder quando me perguntarem: Por que essa cara amarrada?

sábado, 26 de julho de 2014 às 10:23 , 0 Comments

Auto-avalição

Agarro-me, com frequência, aos galhos mortos, nas ocasiões em que me penduro nos abismos. Tenho a impressão de que o suicídio, na forma como o pratico, não liberta, mas aprisiona. Prende, com garras melancólicas, obediente ao coração que deseja sofrer, para escapar da indiferença de viver o vazio que implica a si mesmo. Sei o que sou, e sei porque faço de mim o que quero ser. Descubro a cada dia o poder que tenho de multiplicar a agonia. Mas o que posso fazer, se gosto do vento gelado na pele? Vivo de saudade e é nela que me encontro, pois não pertenço ao presente. Realizo-me na intimidade do medo e da solidão, e sonhar faz parte da minha essência.
Hoje, percebo que estas palavras são a minha assinatura, minha marca registrada, meu símbolo. Meu mundo interior é um grande desfiladeiro, com o sol quase posto ao fundo, o mar abaixo revolto, que é para combinar com as nuvens de tempestade que vão só até o meio do céu, pois, quando olho para trás, quero ver estrelas. É aqui que eu encontro paz.
Por algum tempo me envergonhei de mim mesmo, como o faço com tudo na vida. Açoitei-me com palavras más, no silêncio dos meus desejos frustrados, para me fazer mártir. Me maltratei através dessa minha convicção cinza. Acredito que esta tenha sido uma etapa, a qual me levou lá longe, a ponto de voltar para perto, sempre temendo pelo tempo perdido. Vim até aqui, esta vida de onde escrevo. Não tenho intenção de me livrar dos cabelos grisalhos que cultivei na alma, a contragosto do destino. Tão pouco irei abrir mão da parte de mim que ri da vida e gosta de sorri para as pessoas, como forma de gratidão. Tenho, ao longo dos anos, sistematicamente ignorado essa última, em detrimento do mundo que eu gosto de sentir. Acho que posso dizer que começo a me entender um pouco melhor.
Irei me usar como bateria para mim mesmo. Toda felicidade que encontro é batizada pelo leve aspergir de dor que borrifo sobre ela. E é na beleza dos contrastes e da mente masoquista que carrego onde nascem as cores mais bonitas do mundo, para mim. Sigo pela vida, absorvendo o que de bom e ruim me convir. E que prazer isso me dá!

sexta-feira, 25 de julho de 2014 às 11:26 , 0 Comments

Quando ser água

As nuvens de chuva são, para mim, um bom lugar para se viver. Seria bom rodar, planando, por entre as gotas e a névoa escura. O calor dos raios faria a temperatura oscilar e, na dança do quente e frio do ar a meu redor, eu seria etéreo. E viveria a girar. Cada gota seria irmã, pai, mãe e eu de mim mesmo. Pulsaríamos uniformes de encontro ao destino que nos aguarda a todas as nuvens de chuva: chover. Choveríamos como chovem as tempestades mais intensas - lavando consigo o que há de descoberto no mundo. Levemente, cairíamos sobre o mundo cru, enquanto cada parte de mim faria o som da minha voz retumbar no clique-clique dos pingos de nós, quando tocássemos a pele honesta do que se nos oferecesse. Com nossas pernas líquidas correríamos as reentrâncias mais profundas da existência, numa costura intrincada, até formarmos o texto da vida-água de existir enquanto chuva que caiu; para, em seguida, no tempo que só a mãe d'água pode ditar, derretermo-nos em gás... Vento úmido de água evaporada que sobe quente, quente e quente até esfriar. E no esfriado de nosso corpo gasoso é que nos reconheceríamos como bailarinos no céu, confusos de nós mesmos como nós mesmos, embora certos do céu que a tudo cerca.
E é por isso que, hoje, quando olho para o céu, não me sinto mais só.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014 às 18:48 , 3 Comments

Monotom

-Qual é o problema do vaso, Anita?
Perguntei, sem esperar uma resposta convincente.
- Esse trombolho fica no caminho, ninguém consegue passar por esse canto!
-Anita, você está ciente de que não existe "passar" em um canto de fundo da sala, o que raios alguém faria ali?
-Mas se eu quiser passar, por exemplo, esse vaso tira a minha liberdade de poder utilizar esse espaço.
-Então você pode usar o espaço, se lhe convir, mas eu não posso colocar um vaso lá?
-Não sou só eu, todos que quiserem.
-Mas só temos eu e você morando aqui.
-Eventualmente teremos visitas e eu quero que as minhas visitas possam andar pela minha casa.
-E elas não podem se contentar em andar por TODO o resto da casa?
-Você é tão egoísta! O que é que custa tirar o vaso daí?
-Eu gosto dele! E essa casa é minha, se eu não puder deixá-lo aqui, onde deixarei?
-É pra isso que você tem aquele escritório, coloca lá.
-Então, da casa inteira, eu só posso usar o escritório?
-É claro que não... Mas você não entende que o resto da casa é de todos e todos devem gostar do que se coloca nela!
-Ah é? Então tire aquela penteadeira que você colocou no nosso quarto, eu não gosto dela.
-Aquilo é diferente, é uma herança da minha avó.
-Então mova pelo menos, você sabe que detesto espelhos e aquele fica exatamente de frente para o meu lado da cama, não consigo dormir direito!
-Poupe-me, é apenas um espelhinho. Você já é grande, pode lidar com isso. Além do mais, é a única memória  que eu tenho da Vovó Cacilda, amava tanto ela... Gosto de ter aquilo perto de mim, faz eu me sentir segura.
-Então vamos trocar aquela poltrona roxa duríssima que está na sala, não existe mais sombra de almofada naquilo.
-Bobagem, ela nem é tão dura assim...
-Você fala isso por que sempre senta na outra, azul, que você me fez mandar reformar.
-Ela sempre foi a minha favorita desde o início.
-Deveriamos ter mandado as duas.
-Tenho certeza que você está exagerando, a poltrona parece perfeitamente confortável, para quê gastar dinheiro à toa?
-Anita, você nunca me dá ouvidos, por que as coisas sempre tem de ser do jeito que você quer?
-Isso não é verdade! Eu faço o melhor que posso para deixar a casa agradável para você e, quando eu falo qualquer coisa, você já vem com essa história de que "nada pode"! Você deveria dar mais valor ao que eu faço por você ao invés de se fazer de vítima o tempo todo!
-Eu não me faço de vítima, eu só quero...
-EU vou te dizer o que você quer, você quer discordar, fazer tudo ao contrário, nada está bom para você!
-Mas Anita...
-Mas nada! O vaso vai sair daí por bem ou por mal, ou você tira ou eu jogo fora!
-Então tudo bem, vou começar a jogar fora as suas coisas também!
-Não vai nada, eu não fiz nada de errado, quem está passando dos limites é você!
-Tudo isso pro causa de um vaso?
-Se você não tivesse imposto o vaso à nossa casa, nada disso teria acontecido, a culpa é sua!
-Então você pode jogar as coisas fora como bem entende, mas eu não?
-Que conversa é essa, eu não jogo as coisas fora o tempo todo!
-Joga sim, você jogou aquela blusa que eu te dei de presente no nosso aniversário de casamento.
-Ah mas é diferente, aquela blusa não servia pra nada, me deixava completamente reta!
-Mas foi um presente, Anita...
-Exatamente, você me deu, então eu podia fazer o que quisesse com ele.
-Mas então por que você não deixou eu fazer o mesmo com aquela blusa verde que você me deu no natal passado? Eu cansei de te dizer que eu me sinto sufocado com aquilo.
-Você não entende nada de moda, eu já te disse que ela combina com você.
-Mas... Não gosto! Me sinto feio!
-Deixe de bobagem, já disse que fica bom!
-Então não posso mais decidir...
-Ah não, lá vem essa conversa de novo! Ninguém te obriga a estar aqui, se nada está bom, vá embora! Talvez seja isso, talvez devamos nos separar, se não podemos concordar em nada!
-Fico por que amo você, acho que é você é quem não me ama mais.
-Tudo é você, não é? Eu estou sempre errada. Eu que não entendo, eu que não amo. Você já pensou em se colocar na minha posição? Já pensou em como eu me sinto?
-É só isso que tenho feito todo esse tempo...
-Pois eu não sinto nada disso! Não me sinto amada o suficiente, não me sinto respeitada e valorizada nessa casa! Veja só esta conversa: eu te pedi uma coisa, UMA coisa simples, e você não pode fazer para mim? Não! O que você faz no lugar? Joga na minha cara tudo que te incomoda em nossa vida! Esse é o seu amor?
-Não, você não entende, eu...
-Eu nada! Não quero ouvir mais. Acho que é isso, estou infeliz aqui. Esse lugar me deixa triste!
-Não chore, Anita. Seja razoável...
-Então nem chorar eu posso mais? É isso, irei para a casa da minha irmã. Está aí, tá vendo? O senhor não é o senhor perfeito? Você nunca gostou da minha irmã e sabia que isso me machucava!
-Como assim? Nunca fiz nada contra ela, sua irmã é quem, desde o início, sempre me destratou, inclusive na frente de toda a sua família!
-Ela tinha ciúmes! Sempre fomos muito apegadas. Você nunca procurou compreender a situação dela também!
-Ciúmes, Anita? Ela fala sempre que pode que "preto é tudo safado"! E você acha que eu não sei que é para mim?
-Você leva tudo muito a sério, é só uma piadinha, todo mundo ri!
-Muito engraçada essa piada, realmente, e todo mundo, nesse caso, é você.
-Eu tenho senso de humor. Não tente inverter as coisas, estou dizendo que vou embora, não duvide de mim!
-Tudo bem, Anita, então vá! Quero ver você arrumar outro trouxa para aguentar isso por tanto tempo!
-Tá vendo!? Você estava só esperando eu me cansar para pular fora, você queria que isso acontecesse desde o início! Você nunca me amou e eu fiz tudo por você! Você está pondo tudo a perder, tudo que a gente construiu, a nossa família, nossos planos, nossos sonhos, nosso amor, nossa vida! Jogue tudo fora mesmo!
-Irei dormir, Anita, estou cansado. Cansado dessa discussão, cansado de ter de justificar todas as minhas ações. Amanhã tenho de trabalhar cedo e...
- Você está cansado? Imagine como eu estou! Eu é que me desgasto, eu é que fico o dia nessa casa, trabalho feito uma louca para que tudo aqui fique do jeito certo, para que você possa ter uma vida boa! E qual é o pagamento que recebo?
-Estarei no meu escritório, felizmente você me fez mover a minha antiga cama de solteiro para lá. Boa noite.
-Viu só? Para você é tudo simples! Mas a verdade é que até para fugir você depende de mim! Você deveria era me agradecer ao invés de fazer toda essa cena! Boa noite, e pense bem sobre como seria a sua vida sem mim. Se eu for embora, a culpa será sua! Será que você conseguiria ter paz?

domingo, 10 de novembro de 2013 às 06:33 , 1 Comment

Mãos

Cansado, estendo mais uma vez estas mãos negras ao infinito. Daqui, vejo marcas e cicatrizes involuntárias de feridas abertas pela minha própria indecisão. O sangue que escorre das feridas novas e antigas é áspero e não traz o conforto do cotidiano. É fria a dor de agora, não lateja nem reaviva os nervos atrofiados. Estes dedos duros galgam sonhos que não combinam com a brutalidade de um desejo morto e tóxico, embora não deixem de tentar. Acostumados a moldar a leve fumaça azeda, produzida pela decomposição da própria carne, em formas que parecem e são a mesma coisa de sempre, desaprenderam a tocar o sólido. Em algum momento, deixei de ser natural e passei a ser... um futuro ser, um sonho teimoso de ser que está sempre prestes a desaparecer, mas insiste, graças a umas pequenas e doloridas velinhas acesas em volta, que são sabem o mal que fazem ao mundo e a essas mãos tortas, podres, negras, doídas e terrivelmente magoadas, ao fazerem tão bem a elas...

quinta-feira, 18 de julho de 2013 às 17:49 , 0 Comments

Momentos

Tenho medo de ter me perdido em algum lugar distante demais para eu lembrar. Ou pequeno demais para eu achar, mesmo que tenha tempo de voltar tudo. Não me sinto bem. Não me sinto nada bem. Cada uma de minhas decisões estão deixando ver seus resultados e nenhum deles é agradável. Não me sinto feliz com nada do que se me apresenta. E, no entanto, não sei o que fazer. Se alguém me desse, nesse momento, livre escolha: não teria o que dizer. Quero apenas uma coisa nessa vida, mas não é possível viver simples. Não é possível viver uma única vida. Estou parado no tempo e o tempo, no entanto, não para. E eu queria tanto ser como todo mundo...

domingo, 28 de abril de 2013 às 15:52 , 0 Comments

Sumindo

Talvez eu lute contra o destino, não sei. Às vezes eu exijo e me bato contra as chances. Mas é só por que, para mim, amar não é matemática, não é questão daquilo que faz mais sentido ou que seja mais provável... As pessoas não se juntam porque podem estar juntas, elas se amam porque devem se amar. E o meu amor é dever rude, que, em toda sua brutalidade, não aceita ser direcionado.Ele vem e fica um tempo... Depois se vai e eu fico esperando, acariciando as rachaduras que aos poucos cicatrizam em minha alma. Guardo todos os papéis rasgados comigo, que é pra me lembrar de não pensar que eu tenha alguma vontade no que diz respeito a mim mesmo. Embora eu ainda seja racional demais. Quero me livrar de todos os pesos que me pressionam. O problema é que eu não sei não me importar. Faz parte de mim me preocupar e ponderar. E temer, acima de tudo.  Mas, de pouco em pouco, o cansaço encobre o que me resta de medo e, algum dia, hei de acabar em sombra. Hoje, nesse instante, com todas os momentos felizes que vivi e todos as lembranças doloridas: eu não sou o suficiente para existir.

segunda-feira, 15 de abril de 2013 às 18:44 , 0 Comments

Distante

Devoto-me aos amores que conheço: os meus. Dentro deles, sinto inevitavelmente tudo que devo sentir. Aqui sou de fato feliz. O tempo é limitado, não preciso de muito. Preciso apenas de doses diárias de qualquer sensação que seja. Abraço-me de dentro para fora. Todas as minhas dobras envergam para dentro. Enferrujei por fora e apareço como uma carcassa mal cuidada. Perdoem-me se não me preocupei com o lado de fora, o que acontece é que se eu descuidar de dentro, desmorono. E aí eu não sei se consigo voltar... Agora, acredito que seja dificil demais desfazer a postura. Teria de trocar peças que não existem, tirar partes que não podem ser tiradas, deixar para trás dores que, hoje, dizem mais de mim do que qualquer sorriso. Pretendo uma vida feliz. Sonho com momentos especiais. Não preciso de fogos de artfício ou grandes espetáculos. Quero coisas simples, sacio-me fácil. Sou uma alma de pouco apetite, mas de grande vontade. Quero mais do que posso ter, pois o que desejo é tão pequeno que só faz falta a mim, então acham que é pirraça. Cada passo que dou nessa vida, e acredite no que eu digo agora, pois não há nada mais sincero em mim, vai na mesma direção. O problema é que eu não sei andar sozinho. Sei aonde quero chegar, só não quero ir lá ainda. Preciso de autorização. Faltam-me aqueles olhos. Não é que eu queira me submeter ou me anular. Porém, não me desculpo pelo atrevimento de dizer que o faria de bom grado, só pela vontade de sentir de verdade o que é ser tocado.

sábado, 16 de fevereiro de 2013 às 19:03 , 0 Comments

Outra visita

Sabe qual é o meu problema? O meu problema é que eu sempre retorno à essa mesma poltrona vermelha para dizer das mesmas danças, dos mesmos gestos, dos mesmos corpos que eu vejo se distanciarem de mim. Somos amigos aqui, nesse espaço, eu e minha melancolia. Preciso de respostar que ninguém tem para ser estável e é por isso que estou sempre em convulsões. Talvez seja por isso que as imagens de mim são tão borradas. Minhas fotos nunca são belas. Aceito minha dor e gosto de falar dela, até demais. A dor faz tudo parecer mais heróico, mais digno. Porém, não aceito sua dor. Não porque não possa, mas porque não quero. E não é por maldade, é por respeito. Sou o tipo de pessoa que foge de tudo, tenho medo do mundo e de todos e tenho consciência de que corri de você. Não, você não se sente amada. Nunca se sentiu e jamais acreditou em mim. O meu amor é feio, pois nasce de uma alma covarde, que esconde o rosto e vira as costas para quem olha em sua direção. Adimito agora o maior dos meus segredos: tenho tanto medo. Não gosto da rua, não gosto dos olhos, não gosto das mãos... e os quero tanto! Você confundiu minha tristeza fria com indiferença, meu reflexo nervoso com agressividade. Será possível ter fobia de viver? Se você tiver de ir embora, vá! Seja feliz! Não há ironia em minhas palavras, ou suplica. Há resignação, aceitação. Conto meus passos pelas coisas que perdi e vejo meu futuro em dores que virão. Esse sou eu! Não sou de pedra, não sou indiferente, não sou bonito, não sou confiante, falo demais, escrevo demais, repito demais... Trago de volta algo que já disse várias vezes. Estar comigo é doloroso e isso sempre me incomodou mais do que qualquer coisa. Essa é a única maneira de falar de mim que eu conheço, mas conheço inúmeras outras para falar de você, sabe por quê? Você me ensinou a viver. Faz anos que eu sou uma cópia imperfeita sua. Cada passo, cada gesto, cada sorriso, só para ver se consegueria amar igual. Sabe qual é o nosso problema? Eu quero te arrastar para o buraco comigo. Eu já sabia que algum dia você iria me esquecer, eu aceito isso. E repito, não é por maldade, é por respeito. E se não for atrevido demais, por amor. Portanto, se você tiver que me esquecer, esqueça! Vá embora para longe, se isso te fizer feliz. Contanto que eu não seja mais a causa da sua dor. Pode soar egoísta para você, como tudo que eu digo soa, mas não é. Se eu sou apenas esse monstro para você, essa dor tão absurda, me deixe. Mate esse monstro. Pois eu não posso fazer isso, não pego em armas. Não sei lutar. Aceito com resignação cada decisão sua, sentado nessa velha poltrona vermelha, olhando por esse mesmo vidro, sentindo o mesmo medo enorme de que você seja sensata o suficiente de nunca mais olhar para trás e eu termine sozinho, posto que jamais deixarei ninguém chegar tão longe aqui dentro quanto você chegou. Você é o último tesouro que possuo e eu estou mais do que disposto a perdê-lo, desde que você esteja bem e em paz. Para isso deixarei de ostentar com orgulho e inveja esse mínimo estilhaço de porcelana que carrego grosseiramente enfiado em meu peito. Tiro-o agora e estendo-o a você. O que você quer que eu faça?

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013 às 20:45 , 0 Comments

Líquidos...

Redescubro que sou um rio, que corre como um milhão de cavalos desesperados em direção à... que? Quero parar essas minhas águas doentes, pois corro cansado. Quero ser sólido, pela primeira vez. Formei-me gelo outro dia e congelado, pensei ter conseguido alguma forma. Porém, vindo o degelo, me desfiz em corredeiras dolorosamente duras e ainda menos sólidas do que jamais foram. Quero ser rocha. Vejo pedras, montanhas, desfiladeiros...estátuas... O amor é assim, como um gigante de diamante. Translúcido e absolutamente sólido. Forte e geométrico, sabe exatamente aonde vai pois se move na medida de sua vontade. Não conhece a tensão, apenas a calma brisa de uma vida tranquila. Não tem pressa, já que a pressa pertence ao tempo e o tempo... o tempo é das águas.

domingo, 23 de dezembro de 2012 às 18:11 , 0 Comments

Ser só

Vivendo descobri que o cansaço só pesa para o lado certo, em direção aos abismos tudo é mais leve. Ficar parado é sobreviver e se mover é um risco. Qualquer direção é dolorosa, porém, em algumas há momentos de beleza infinita e amor palpável, intenso. Nunca escolhi um caminho assim. Tenho notícias, lendas, rumores. Por onde ando vejo sonhos como nuvens: distantes, etéreos, às vezes belos, outras vezes tempestuosos, mas sempre vivos. Absorvo-os, vivo-os e alimento-me à distância, depois sigo andando. Nunca toquei nada. Percebo agora que sou eu quem é feito de alguma substância gasosa. De tanto me dobrar para dentro, joguei fora a matéria sólida. Meu corpo e meus instintos se atrofiaram assim que aprendi a fugir. Só sei correr para o lado errado. Gosto de sentir o vento forte, a terra bruta sob os pés, é só o que conheço. Aprendi a imaginar vidas diversas nos contornos sombrios que se formam entre as silhuetas das árvores. O cheiro podre da decomposição já é familiar, fico desconcertado quando ele some. Não sei agir quando há sol. Finjo de morto ou me desespero. Sinto a pele queimar, o rosto se desfigurar e a gordura se desprender de minha enorme barriga, escorrendo pelas pernas. Derreto monstruosamente e consciente disso. Não suporto que me vejam assim, e é assim, apenas, que me vêem. É tudo que sei mostrar, meu único reflexo: irrefreável, involuntário. Às vezes tento, inutilmente, segurar esse meu eu liquido com as mãos, mas escorro por entre dedos temerosos, diluído em lágrimas sutilmente disfarçadas e suor fétido. Quando o sol se põe, volto correndo para as sombras. Congelo. Endureço até não poder me mover mais e quando acho que finalmente aprendi a viver estático, o sangue frio exige calor. Queria ser como essas árvores: fixo, estável, mas principalmente, coerente. Não sou o que deveria ser, e também não sou como não deveria ser. Não pertenço à nenhum lugar, à ninguém. Não faço parte dessa vida e ainda assim, não tenho escolha, não há para onde ir. Não, não, não. Minha vida sempre foi, e desconfio que sempre será, um grande NÃO. Até que eu me conforme e aceite que a resposta para todas as minhas perguntas é a mais óbvia, e é aí que todos as peças se encaixam. Olho com uma inveja destrutiva para o mundo. Destruo o máximo de sonhos e alegrias que consigo. Infecto à todos que consigo alcançar. Passo pela vida como uma doença. Na luta pela sobrevivência, ocupo cada espaço, infiltro-me em cada célula, cada vaso, cada órgão... até o fim. Depois, saio rasgando a pele e ando curvado em busca de um novo hospedeiro. Deixo para trás olhos enjoados, corpos alérgicos e arrepios de repulsa. Sou indesejado e inevitável. Não sei como é para as pessoas a minha existência, no entanto, para mim, é esmagadora. Um verme não escolhe ser um verme, ele é, e à partir de ser, não há mais volta. Depois de nascer, todos temos de lidar com estar presente hoje, nesse lugar, dessa maneira, junto dessas pessoas. Há aqueles que voam leves e graciosos por cima, outros, escorregam pelas frestas e deslizam viscosos por atalhos escondidos. A grande maioria se junta em um estouro de manada e sai passando por cima de tudo no caminho. Amassados uns contra os outros, só lhes é permitido olhar para frente, um só desvio e você é pisoteado. E existem aqueles como eu, parasitas, que existem por acidente. Erros que não se encaixam no grupo dos erros. Ilhas isoladas e tóxicas, de olhos enormes, condenados a viver afogados em um mar de desejos incinerantes, olhando de longe e torturando violentamente tudo que ouse chegar perto demais. Como é impossível se acostumar à dor, o corpo esquece como é ser gentil. O grande mal da vida não é a morte, é não poder escapar de si mesmo.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012 às 18:38 , 1 Comment

Adeus cotidiano

Sentei-me aqui e resolvi relembrar. Faço isso com frequência. Essa poltrona vermelha já ouviu tanto de mim. Conto-lhe o que passa por aquela janela ali, minha querida companheira.Vejo através do vidro basso em mosaicos, pedaços de imagens. Algumas pessoas atravessam por engano a janela e ficam presas aqui comigo durante um tempo, em carne viva, doloridas e cortadas. Esfrego-me em suas feridas excitado, lambendo o sangue de sua genitália, ardendo de prazer enquanto gritam. E enfio meu pau sujo e inchado  em seus cortes, infecionando e abrindo ainda mais as feridas. Estupro-lhes até que seus cus estejam largos e as fezes escorram pela perna incontidas. Chupo seus pintos até que gozem sangue, enquanto aperto suas bolas até estourar. Mordo suas vaginas até que pedaços de carne me saiam na boca. Depois, tiro-lhes os cacos, sem anestesia. Sádico, lhes arranco a pele morta e costuro o que resta vagarosamente, que é para  olhar as entranhas e vê-los sangrar . Mas, eventualmente, acabam se recuperando e arranjando um jeito de sair. Não me importo tanto assim. 
Desaprendi a amar há muito tempo, por falta de prática. As pessoas não merecem amor, são todas hipócritas, eu incluso. Tem gente que passa a vida reclamando, outros criticando, uns ofendendo e ainda tem os que mentem, só para depois dar as mãos à todos os antes odiados e dançar com os primeiros que estenderem a mão. Acho que é isso que buscamos, mãos estendidas para nos puxar da agonia desse eterno afogamento que é a vida real. Um outro alguém, que suavemente lhes toque os lábios com os seus e sopre, tirando-lhes a água negra e amarga dos pulmões, em uma torrente fulminante que os esturrique a traqueia e os tire a voz .
Sou um velho. Grisalho do tempo que não vivi, de mil arrependimentos. A pele enrugada é cheia de dobras nos tantos lugares intocados, que se esticaram para as mãos que passaram longe demais. Banguelo e com a língua podre de maldizer os que vivem bem e felizes. Impotente de tanto gozar sozinho bilhões de sonhos em esperma branco e pálido. De pés tortos e mofados, atrofiados por viver sentado. Entretanto, tenho ouvidos atentos e olhos de águia. Sinto esse mundo inteiro com tanta intensidade que fico paralítico. Tenho um cérebro vivo, cujo corpo não responde. Tenho uma voz alta, potente, aguda e vibrante, soterrada em uma garganta fechada e curta demais para produzir som.
Do lado de fora do vidro, há um grande teatro. De vez em quando, todos temos de participar de alguma peça. Arrasto-me até lá e tento achar pessoas que estejam dispostas a contracenar. E quero tanto acreditar. Entrego-me de corpo e alma à obra, sinto cada palavra que digo, sou cada sorriso e cada lágrima derramada, existo ali naquele personagem e esqueço que tenho de voltar. Só para depois descobrir que todos seguem um script e nada dito ali é de verdade. Acreditei que 'sempre' era sempre. Que 'ninguém' era ninguém. Que há coisas que nunca mudam. Mas tudo muda. As pessoas mudam e o que você tem a oferecer, as vezes, não é suficiente. E eu não fui diferente. 
Tive o prazer de uma longa companhia que se foi. Pude observar longa e duramente enquanto nos afastávamos cada vez mais. Enquanto cada um escolhia um caminho e seguia por uma direção diferente e incongruente. Já fomos iguais, ah se fomos. Ela também teve o mesmo apetite que eu. Porém, seguimos caminhos diferentes. Eu espero dentro dessa casa. Essas paredes são meu corpo e estou seguro aqui dentro. Ela não quis segurança, quis experimentar. Nunca se contentou com um corpo por vez, queria vários, queria o mundo inteiro. Eu lhe chamava arrogante, ela me chamava medroso. Sou, na verdade, invejoso.
Que bom que nos conhecemos antes então, pois acho que nos odiaríamos agora. Sinto que sempre precisarei de sua companhia, tanto quanto antes, embora ela não seja minha mais. Encontrei ao longo do caminho outras sombras para serem queridas, outros corpos para usar, e eventualmente, compartilhar da   minha loucura, mas só cometi o erro de deixar que se aproximassem tanto algumas poucas vezes e há tempos que não permito mais. Cada uma, a seu tempo, foi-se distanciando. Parece-me que todas elas estão me deixando para alcançar suas próprias vidas em lugar onde eu não as possa abusar mais. Fui e sou eternamente dependente, ainda que exija demais. Abuso até matar aqueles que me cercam e é por isso que a minha volta só existem corpos. E memórias. E um amor tão grande e doloroso, insuportavelmente pesado, esmagador. Alguns o aceitam, mas descobrem que não é o que esperavam. E sobram no fim somente eu e essa poltrona, acorrentados para sempre um ao outro, nesse silêncio que sempre volta para me perturbar, nessa solidão que é a única verdade, olhando enquanto pouco a pouco a cortina se fecha.
E no fim, ao que parece, há ainda tanto restante aqui, que acabo imitando você. Não foi por querer e é por isso que não estou triste, pois ainda tenho tudo aquilo que suguei guardado em mim, e é o bastante para sobreviver por enquanto.

sábado, 28 de abril de 2012 às 17:00 , 0 Comments

Talvez um fim.

Olhei profundamente dentro de seus olhos, não encontrei. Há algum tempo ando reparando que estava descamando, só que eu também estava e acabei não dando importância. Virei o corpo vazio de um lado para o outro, procurando por onde tinha saído. Não encontrei nada: nenhum buraco, corte ou hematoma.  Somente as antigas cicatrizes, deixadas para trás. Desapareceu no ar. Melancólico era aquela corpo. Inerte, completamente sem cor contra o chão de madeira.  Nem os olhos, nem os cabelos, nem a pele, nem a língua, nem as unhas, nem o vestido, nem os sapatos: nada tinha cor. E não se mexia mais. Antes era uma bailarina absolutamente cansativa, dançava sem parar a mesma música, que cantava incessantemente. Parava para respirar de tempos em tempos, depois retomava. Os dias eram sempre nublados aqui, gostávamos disso, preferiamos assim. Tornei-me acostumado aos dias cinzas e acabei por tentar escurecê-los ainda mais. Ela não. Embora odiasse o sol, gostava das cores. Tentava sair daqui. Chegava até a ponta, até quase cair, mas voltava sempre, quebrada. A porcelana era frágil demais. Remendávamos aqui e ali, costurava com as minhas cordas e ela se entregava à música novamente. Eu, sempre sentado, pesado, preferia não me mover, não me dava conta de que era uma âncora cosida à ela. Rodopiava em volta de mim, me instigando ao movimento, saltando, gritando, aguda e vibrante. Confesso que tive vontade, mas não coragem. E o ciclo continuou. E os dias se escureciam. E eu parei de me importar. Olhei para o outro lado, procurando alguma novidade. Arrastei-me pra longe dela, achei que não iria embora, estaria ali quando voltasse. Agora que voltei, eis como a encontro. Primeiro pensei em traição, ela arrumou um jeito de ir e me deixou para trás, amarrado à essa concha cheia de lembranças, mas vazia de consciência. Porém, investigando melhor, descobri que não foi consciente. A cada volta, a cada respiração, a cada pirueta e salto, ela partia. Pelos poros, pela saliva, pelo suor, sua essência foi-se com o tempo. Não é que ela tenha fugido, é só que, ela esse corpo não era mais seu,  e eu não reparei. Agora, ela é adequada para viver no mundo de lá. Ela transcendeu para o lugar onde todos que passam por aqui vão, e eu fiquei. Daqui, consigo enxergar uma silhueta borrada, flashes em negro e vermelho, do lado de lá do vidro. Esforço meus olhos e meus sentidos para entender o que está acontecendo. Enquanto isso, os flashes ficam cada vez mais escassos, e eu, desconfio que nunca mais chegarei a vê-la novamente.

sábado, 21 de abril de 2012 às 11:23 , 0 Comments

Intenções

Estou triste hoje. Não por mim, mas por uma pessoa muito especial que não merecia o que está passando. Gostaria de poder fazer algo. Eu rezaria, acreditasse. Acredito em pensamento positivo, em esperança. E ficarei torcendo, do fundo da alma, para que tudo dê certo. Não sei muito o que dizer, mas senti que eu deveria escrever algo. Senti que deveria registrar o respeito e a gratidão que sinto tão profundamente. Dizer que eu gosto de pensar que as coisas boas vêm para as pessoas boas, que nada é em vão e que eu quero muito que as coisas se resolvam da melhor maneira. Quero também que esse caminho não seja de tanto sofrimento e que termine bem, de uma forma ou de outra. Dizer que eu também tenho medo e mesmo podendo só imaginar o que se passa no seu coração, eu me sensibilizo e meus pensamentos estão com você. Penso que essa tristeza que se instala nos corações de todos seja uma forma de amor também, uma forma de homenagem e de dizer que você é importante, que você faria muita falta. Então, você não deve esconder a sua doença, deve lutar apenas, e deixar que nós ajudemos suportando nem que seja um pedacinho dela com você. Confiarei que tudo dará certo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012 às 18:22 , 1 Comment

Não conte pra ninguém!

Há quanto tempo eu não passo por aqui! Volto de vez em quando, releio alguma coisa, vejo os comentários antigos. Nada mudou. Continuo com os mesmos medos, as mesmas esperanças, os mesmos sonhos, as mesmas fantasias. O mesmo hábito de fazer lista das coisas. Acho que estou começando a me acostumar. As coisas são do jeito que são. Pensar em destino me acalma. Quer dizer que não tem como mudar mesmo, o problema não sou eu. E todos os outros textos falando a mesma coisa. Anos. Pelo menos tenho coerência. Andava pensando que era meio sem personalidade. A paisagem mudou. As pessoas também. Mas ainda continuo na mesma. Será que o problema sou eu mesmo? Continuo esperando alguém fazer as coisas por mim. Tenho medo de fazer e não conseguir. Tenho medo de tanta coisa e fico paralisado. Por que é que todo mundo consegue ter coragem, engolir os sapos e fazer o que tem de ser feito, quando eu consigo apenas gaguejar, esquecer tudo e travar, e as coisas boas passam direto para o próximo da fila. Será que tem remédio para isso? Não consigo olhar nos olhos das pessoas. Não consigo mesmo! As vezes tento, mas me dá um desconforto tão grande que não consigo pensar! Aí olho para outro lugar. Meu corpo rejeita o contato. Converso com as pessoas olhando para o além. Hoje eu falei algo com a professora na sala de aula, no intervalo, e ela citou isso durante o segundo horário da aula. Ela apontou para mim e eu quase morri! Meu coração dispara, a garganta fica seca...um ataque de pânico mesmo! Quando estou aqui pensando sobre as coisas, tudo parece tão possível. Penso em ir lá e falar na frente de todos; em cantar em um palco enorme; enceno mil peças na minha cabeça. Mas se eu não consigo suportar o olhar dos meus próprio amigos. Da minha mãe! Acho que não consigo. Juro que tento lutar contra isso. É só que meu corpo não responde, ele luta contra. Na hora que eu preciso de forças, me vem um medo tão grande, uma fraqueza enorme, daí eu fujo. Quantas vezes eu já disse não para coisas que, na verdade, eu queria gritar "sim, pelo amor de Deus!" por puro impulso do medo de aceitar. A vida anda se tornando desconfortável, enquanto eu assisto o mundo se movendo em volta. Para todo mundo, menos para mim.

sexta-feira, 23 de março de 2012 às 18:10 , 2 Comments

Postagem reservada

Sabe que as vezes eu tenho saudade da PUC, mas só por causa das pessoas. Principalmente algumas. Tem gente tão longe agora, e outros que embora estejam perto, não aparecem. Aí eu fico com um nó no peito só de pensar nas nossas risadas, nas andanças até a biblioteca, nas reclamações sobre o curso, nos dias de mau humor, nos trabalhos que SEMPRE davam errado na hora de apresentar... Eu sabia que sentiria falta, mas não imaginei que seria tanta. Mas eu realmente acredito que fomos amigos, não sei se ainda somos, espero que sim pois ainda me sinto assim. Lembro exatamente do primeiro dia que sentamos na praçinha do coréu. Não nos conheçiamos, mas acho que já nos identificamos ali! E daí vieram as matérias, os textos, os Benvenistes e eu achava que tava tudo tenso e chato, mas agora pensando sobre isso, até que a gente dava um jeito de se divertir bastante! Faziamos planos, pensávamos sobre o futuro. Sinto que essa postagem está com cara obtuário de gente morta, que era podre em vida e santo na morte... É só que, eu genuinamente sinto falta de vocês...

quinta-feira, 27 de outubro de 2011 às 17:01 , 0 Comments

O fim de tarde estava amarelado, parecia que o mundo estava em sépia. A vida vira deserto de vez enquando. A gente dá uma olhada em volta e se dá conta de que tudo que era tão vivo antes, virou pó. Dunas de areia seca que queimam as solas dos pés, apagam as pegadas e deixam a gente doendo e sozinho. Tudo é igual para todos os lados. E vazio. Dá vontade de deitar e ficar sentindo o sol e o vento batendo no rosto, e ficar imaginando, sonhando acordado. Dá vontade de sorrir. Mas aí passa. Porque não dá para sonhar pra sempre, de vez enquando tem de se abrir os olhos, porque as idéias se acabam e a gente precisa de ajuda para ter inspiração. De vez enquando aparece um cacto, um lagarto, um escorpião, uma cobra. Tudo a mesma coisa. Dá até raiva. A gente tem as mesmas manias, as mesmas aversões, os mesmos pensamentos. Nada é original. Mas todo mundo insiste em achar que é. Só que tudo aqui é amarelo sem graça. Ou beje, que é a mesma coisa com nome chique. Daí, dá preguiça de existir, porque se já aconteceu tudo mesmo, cadê o suspense? Cadê a emoção? Cadê qulquer coisa que valha a pena? Mas aí vem o medo. Se não tiver nada disso, o que é que tem? Tem nada. Nada o que? Nada, só nada. E nada ninguém sabe o que é. Só o que não é. Então, vou dar um jeito de arrumar essa bagunça. Botar cada duna lugar, abraçar os poucos cactos que ainda restam, deixar-me morder, picar, bicar, chifrar, rasgar, triturar e tudo o mais, só porque o barulho do vento é assustador demais.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011 às 18:08 , 0 Comments